Um mergulho no Arapiuns

Esse post é sobre conhecer o próprio quintal e meu quintal não está mais tão perto, meu quintal está no Brasil. Depois de quase quatro anos sem voltar para casa, fui à Santarém e conheci o Arapiuns, a terra onde tudo começou, a terra onde minha avó nasceu, se criou e deixou para trás. O lugar familiar que ficou mais familiar na memória da minha avó agora que por causa da idade avançada quase já não tem memórias recentes para explorar e está constantemente recorrendo ao passado. Arapiuns, a terra que ela decidiu abandonar e tudo o que já tinha ouvido a respeito não passavam de episódios soltos. Depois de quase 4 anos morando fora e ouvindo os pedaços de informações e as notícias que as memórias da dona Luíza estavam aos pouco desaparecendo, tudo que eu podia fazer era fantasiar sobre o dia que eu iria conseguir vê-la de novo para ouvir mais das histórias dela e talvez visitar o Arapiuns. Queria eu assim como ela, fazer memórias naquele lugar e quem sabe descobrir um pouco mais do passado da família Caetano da Silva. Aconteceu, fui ao Brasil. E só no momento em que pisei em solo santareno pude acreditar que era realidade, eu estava de volta à minha terra. Dos 5 dias que passei em Santarém 2 foram no Arapiuns e é sobre esses dois dias que trago registros. Dois dias que até agora, quase dois meses depois, ainda estou processando. Tudo sobre a minha volta à Santarém foi especial, mas visitar o Arapiuns teve um significado maior.

Meu pai, o filho da dona Luíza, sabendo do meu desejo de conhecer o Arapiuns foi quem organizou nossa expedição. Uma rede, uma camera, um bloco de anotações e eu estava pronta para embarcar. Foram 6 horas de viagem. Tínhamos o nome de uma prima da minha avó, a única que teria ficado na vila depois de a família inteira ter migrado para a cidade, sendo a dona Luíza uma das primeiras. Saímos de porta em porta e não demorou pra descobrirmos a casa certa. Vimos fotos, ouvimos histórias, conhecemos parentes distantes, nos emocionamos. Eu não podia acreditar que estava ali e que há muitos e muitos anos aquele era o exato lugar onde minha avó e a família dela moraram.

E continuamos de uma casa a outra, conversando, descobrindo as origens das famílias Caetano e Silva. Fomos parar na casa da Dona Maria Rosa que nos acolheu com tanto carinho e nos compartilhou memórias preciosas da minha avó. A dona Maria Rosa é casada com um Caetano (sobrinho da minha avó) e é aí onde as conexões começaram. Minha avó era uma costureira de mão cheia que costumava costurar para as famílias de posse em Santarém. Um mistério para nós era como e onde ela tinha aprendido a costurar. A dona Maria nos contou tudo. minha avó tinha aprendido a costurar ali mesmo no Arapiuns com a mãe da dona Maria que tinha uma máquina de costurar e aos poucos foi ensinando o que sabia para a minha avó. Demorou um pouco para a dona Maria entender porquê estávamos ali, cavando o passado e fazendo tantas perguntas. Mas quando ela entendeu que essas histórias eram importantes para nós ela nos convidou para ver a máquina, agora velha e abandonada na casa de farinha, em que a mãe dela e minha avó costumavam costurar. Muitas são as histórias, os detalhes, momentos vividos que não cabem aqui. Vejam mais alguns registros meus e do Micah.

O dia passou rápido e eu não parava de querer saber mais, não só as histórias da família mas tudo sobre aquele lugar e aquele povo. Quanta riqueza contada que se eu não tivesse ido ali e perguntado teriam passado despercebidas, esquecidas e nunca mais tocadas. Quão sortuda me senti de estar ali vivendo aquele momento com meu meu pai, irmãos, tios, primos e amigos. Quão honrada me senti de ter conhecido o povo acolhedor do Arapiuns e saber que somos frutos das mesmas raízes.

O mergulho

Depois de passarmos uma noite no Arapiuns dormindo no barco (estava com tanta saudade disso) ouvindo o barulho da floresta e admirando o céu estrelado, só faltava uma coisa para minha viagem ser completa, o mergulho nas águas do Arapiuns. Nosso capitão conhecedor de todos os rios da Amazonia nos levou à uma ponta de praia no caminho de volta para Santarém e meu sonho foi realizado. Mergulhei nas águas verde escuras e limpas do rio Arapiuns, andei descalça sob areias quentes e soltas que de tão soltas afundavam meus pés. Me belisquei para saber se era verdade. O melhor banho de rio da vida! talvez pela significância, pela beleza do lugar, pela saudade do rio, não sei. O fato é que essa é uma das minhas memórias favoritas dessa viagem. Consigo fechar os olhos e sentir aquele mergulho (Sim, sou do tipo nostálgica).

Artesanato do Arapiuns
O mergulho do Micah e do tio Walter

A Dona Luíza

Depois de dois dias no rio eu e meu pai voltamos para a casa da vovó para contar que tínhamos ido lá na terra dela, mostrar as fotos, falar um pouco das histórias que ouvimos. Aos poucos ela começou a se lembrar, outras memórias que não sabíamos começaram a surgir e fomos acumulando mais peças no nosso quebra-cabeça. Aprendemos que a dona Luíza é o tipo de mulher que tem muitas memórias mas também tem muitos segredos. Hoje ela beira os 90 anos e não temos nenhum registro escrito da vida dela, nenhuma carta escrita à um membro da família, uma foto com escritas atrás, documentos, ou sequer um bilhete. Minha avó nunca aprendeu a ler e escrever. Ela sempre confiou no que via, ouvia e assim conta suas experiências e histórias até hoje. A dona Luíza é uma mulher de personalidade forte e tem espírito aventureiro, diz que sente saudades do Arapiuns mas não tem vontade de voltar para lá porque a vida dela é daqui para frente, criou seus dois filhos sozinha, conseguiu dominar a profissão de costureira com perfeição e maestria mesmo sem saber ler letras e números. Minha missão de hoje em diante é escrever a história dela para que as próximas gerações da nossa família tenham orgulho da mulher forte que ela é. A dona Luíza é meu maior elo de ligação com a minha terra. Ela é ao mesmo tempo Raíz e Semente lançada para longe. Acho que foi dela de quem herdei a inquietude e o espírito de aventura. Ela é a razão que me levou a conhecer o Arapiuns. E sobre a beleza desse lugar, ela não mentiu e não aumentou, é lindo do jeito que ela se lembra!

Se você tem interesse em visitar o Arapiuns, existe turismo de base comunitária na região. Clique aqui para saber como. E uma vez que estiver lá não deixe de comprar o artesanato feito pelas mão das mulheres artesãs do Arapiuns.

Até a próxima!

Agradecimentos

Pai (Carlos Alberto) – organizador da viagem, Micah – colaboração nas fotos, Pr. Nilton e Cleucy – Donos do barco. Aos amigos e família que fizeram tempo para me acompanhar nessa viagem, obrigada por fazerem parte disso e pelas memórias incríveis que não foram escritas aqui mas estão guardadas no coração.