Mochileira de primeira viagem

Olá amigos e pessoas leitoras!

Esse post é para você que tem vontades que vem do nada, vontade de colocar uma mochila na costa e sair explorando esse mundo vasto mundo de Raimundo. Hoje, depois de muito tempo (desculpa a demora, gente), estou aqui para te lembrar que para tudo na vida existe uma primeira vez (nada clichê, juro). Então, deixa eu te contar o que fiz semana passada…

Eu e um grupo de amigos resolvemos colocar umas coisas na mochila e explorar Dolly Sods por uns dias. Dolly Sods é uma área isolada de floresta que fica aqui no meu estado mesmo – West Virginia. Sim, a ideia foi minha e surgiu alguns meses atrás e parece que a ideia encontrou um grupo de inexperientes que resolveu encarar e fazer a viagem acontecer. Não tínhamos ideia do que estávamos fazendo mas é para isso que existe google na vida. O google nos ajudou a planejar e abaixo segue os relatos de uma mochileira de primeira viagem. Lembrando que não estou aqui para dar super dicas de viajante, se você está procurando por isso volte para o google e tente outra palavra-chave na sua busca. Mas caso esteja procurando por um apoio moral para tirar sua bunda do sofá e fazer alguma coisa diferente pode continuar lendo esse texto.

(Ah, já tem um post aqui no blog sobre a outra primeira vez que mochilei. Na real, aquilo foi um bom treinamento mas dessa vez shit got real. Não tinha a galera expert da universidade para preparar a gente e dizer o que fazer. Portanto, estou considerando essa a primeira vez)

Preparativos

Depois de decidirmos a quantidade de dias que faríamos achamos um percurso que se encaixaria nesses dias. Aqui vai o percurso detalhado para quem tem interesse. Não estávamos muito certos sobre como seria a marcação da trilha e como não teríamos sinal de celular, o Micah resolveu usar um app chamado Gaia que funciona offline. Você paga $20 por um ano de uso e valeu muito a pena para a gente (testado e aprovado pelo Micah). Por sorte já tínhamos algumas coisas de acampar aqui em casa e não tivemos muitos gastos alugando ou comprando gear. Já tínhamos a tenda, saco de dormir, colchão e travesseiros infláveis, botas e roupas apropriadas para caminhar. A única coisa que alugamos foram as mochilas. Tivemos que comprar um jetboil para ferver água para fazer comida e nossos amigos compraram um mini filtro  para filtramos água dos riachos (usamos tudo de forma compartilhada). Para comida, optamos por levar barras de cereais e comidas desidratadas (tudo que você precisa é jogar água quente e está pronto). Usamos Mountain House para a comida desidratada e para minha surpresa era até bom. Eu e o Micah somos obcecados com café e é claro que tivemos café bom todos os dias. O Micah comprou os grãos, moeu e levamos com gente. Ano passado dei um minipresso próprio para acampar para o Micah de presente que foi bem usada nessa viagem (e essa foi minha contribuição para o café).

Ah, se você acha que está fora de forma é bom se preparar fisicamente antes e escolher um percurso não muito longo para iniciantes para ter certeza que vai dar conta. Lembra que você vai carregar sua casa nas costas!  No nosso caso, nenhum de nós se tocou para isso, escolhemos um dos percursos mais difíceis e preparo que é bom – nada-. Não vou dizer que não pagamos um preço por isso haha. Foram 34km de terrenos difíceis, subidas, descidas, travessias, quilômetros e mais quilômetros andando em pedreiras (o bicho pegou aqui!). O total de elevação que ganhamos na viagem inteira foi de 680 metros (minhas pernas aguentaram o tranco mais ainda reclamam até hoje rsrs).

Vamos ao que interessa!

Dia 1

Pensamos em cancelar nossa viagem um dia antes quando vimos que a previsão do tempo não iria mudar e que encontraríamos chuva no primeiro dia. Mas, a vontade de se aventurar foi mais forte e concordamos em manter os planos e sair na sexta debaixo de chuva ou sol. Fomos.

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Inocentes, mochileiros de primeira viagem.

 

Curiosidade: Dolly Sods é uma área que foi quase que completamente desmatada no século XIX. Em 1943 foi usada como área de treinamento pelo exército americano para a Segunda Guerra Mundial. E isso quer dizer que ainda existem bombas ativas no terreno e que não pode dar uma de doido e inventar a própria trilha se não vira picadinho. Finalmente, em 1975 a área foi protegida e destinada somente ao uso de recreação e lazer.   

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Para não dizerem que estou mentindo, aqui está a prova.

Aqui vão algumas fotos de quando a chuva deu uma trégua e conseguir parar e alcançar minha camera que, a propósito, foi um peso extra nas minhas costas (sofri).

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Aliviando a costa e apreciando a paisagem.
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Má-gi-co

Por sorte não caiu um toró (como diz o paraense) o dia inteiro. O primeiro dia foi o mais longo e cansativo que tivemos. Caminhamos 16 km até o acampamento, chegamos bem acabados, não conseguimos fazer fogo por causa da chuva mas o importante é que ajeitamos tudo, comemos e descansamos (alguns de nós mais do que os outros né Micah?!).

Dia 2

Com nossas forças renovadas e sabendo que caminharíamos menos até o próximo acampamento (cerca de 8km) o nosso segundo dia foi de boa. Aproveitamos bem o acampamento, tomamos café, alongamos e colocamos nossas coisas para secar (pq finalmente tínhamos sol) e começamos nossa caminhada mais tarde às 11:30.

O dia 2 foi dia de bastante pedreira mas o esforço valeu a pena e fomos presenteados com uma vista maravilhosa do Lions Head. Essa trilha definitivamente não é family friendly, a vista é maravilhosa mas se você tem medo de altura e tem as pernas curtas as fendas entre as rochas podem fazer o coração bater mais forte. Eu por exemplo, curti muito a vista mas não fui para as beiradas porque era risco desnecessário para mim e além do mais fico tonta com abismos hahah.

(As fotos que tirei não fazem justiça ao lugar pq vocês sabem… segurança primeiro)

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Nosso acampamento no segundo dia foi um paraíso, achamos um cantinho na beira de um riacho que deu até para tomar um banho, rolou uma fogueira para animar a noite e foi maravilhoso dormir com o som da água correndo no fundo.

Dia 3 (Final)

Na manhã seguinte 10km nos aguardavam e esse seria o final da nossa jornada. Esse também era o trecho que teríamos mais subidas. O  dia estava ensolarado e boa parte da nossa caminhada era à céu aberto. Começamos a caminhar às 9:15 e chegamos de volta para o ponto de onde partimos por volta de 1 e alguma coisa da tarde, alguns de nós morrendo, reclamando, miseráveis mas felizes (pelo menos por dentro eu acho haha). Vou falar por mim, estava me sentindo bem, ainda com energia e com o coração cheio de felicidade. Foi dolorido, desafiador, lindo e uma experiência única. Fisicamente falando foi a segunda coisa mais desafiadora que já fiz na vida (nada supera os 10 dias e 80 km trabalhando na checagem de trilhas para a Jungle Marathon, mas essa é uma história de sofrimento que poucos sabem e deixaremos assim). Voltando ao história que interessa, acompanhe os destaques do nosso último dia aí nas fotos.

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Primeiros raios de sol da manhã.
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Minha parte preferida do dia 3.
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Estrelando Micah, o modelo de pernas de Dolly Sods.

Moral da história desse post: Ouça a voz do seu coração ou as vozes da sua cabeça (sei lá qual é a coisa que você anda ouvindo hahah) e vá para onde essa voz lhe mandar, mas vá com cuidado, se prepare, aprecie a natureza e se divirta (e se não for para ser assim nem vá rsrs). Ah, mais uma coisa desencana dessa ideia de ficar esperando por aquela viagem fantasia para os Alpes Europeus chegar para colocar uma mochila nas costas. Esse mundo tem tantas esquinas para serem exploradas. Que tal começar pelo seu quintal? Pelo Brasil, pela Amazônia, Chapada, Mata Atlântica, seja lá o que for…. Arrange um lugar para explorar, descubra a Dora Aventureira dentro de você. Revele-se!!

Até a próxima!

(estou indo e quando voltar para o próximo post estarei mais velha, madura, sábia e tudo isso… faltam 45 min para meus 30 anos!!! ain meo deusoo!)

 

 

 

 

Mochilando na Pennsylvania

“Mas porquê a Lidi saiu do meio do mato para ir para os Estados Unidos ficar no meio do mato?” Consigo ver meu pai falando isso.

Gosto do urbano, de ver pessoas, culturas coexistindo, interações, mas o que mais me interessa é o equilíbrio (isso não é uma viagem na maionese). O equilíbrio de ter os dois, enxergar e admirar diferentes belezas. Deixar ser, sentir o ambiente que me rodeia e experimentar os diferentes gostos que ele me dá.

Semana passada me deixei ser e fui. Fui para a minha primeira mochilada (acabei de inventar essa palavra, backpacking talvez soe mais legal). Me inscrevi para uma backpacking trip oferecida pela universidade. O anúncio dizia que era uma backpack trip  destinada somente para mulheres, friendly para iniciantes e com equipamentos, comida, transporte para o lugar da saída inclusos (uma merreca de $30 pila, li até o final para ver se não achava meu nome logo em baixo rsrsr). Sempre fui curiosa para fazer isso, mas não sabia nem para onde ia, porque lá no mato onde eu cresci é coisa de doido dormir na floresta sem razão.

Enfim, depois de pagar o que se faz? “Ache um aliado e serás feliz”. Foi isso que fiz, consegui trazer uma aliada de Pittsburgh para sair carregando uma mochila comigo por aí (parceria forte hein!)

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Nossa mochilada foi na Forbes Forest (Pennsylvania) numa área específica chamada Quebec Wild Run.

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A caminhada foi relativamente fácil para quem estava preparada para uma maratona (SQN). No total éramos um grupo de oito meninas, contando com a nossa líder super mega expert em backpacking que nos ensinou dicas incríveis. A nossa viagem por inteiro foi baseada nos principios de leave no trace, ou seja com o mínimo possível de impacto na natureza. Literalmente, leave no trace significa não deixe rastros. O que é isso? É você curtir uma a natureza, acampar, praticar atividades, mas ser consciente de que a sua presença e tudo que você traz com você pode impactar aquela área. A ideia básica é: faça de tudo para deixar do jeitinho que você encontrou, como se não estivesse nem passado por ali. Leve todas as porcarias que você trouxe de volta com você, para alguns isso inclui até o próprio cocô (não fiquem com nojinho, continuem lendo).

Para você que gosta de ser bem informado aqui estão os sete príncipios do leave no trace que todo mochileiro precisa saber (na verdade é todo mundo que precisa saber e praticar!)

Planejamento e preparação – Faça questão de saber as regras da área com antecedencia, reembale sua comida para evitar a produção de lixo desnecessário, viaje em grupos pequenos.

Viaje e acampe em superficies adequadas – Não invente de fazer sua própria trilha, siga aquela já existente. Se já existem lugares designados para camping, use-os. Caminhe em fila indiana seguindo a trilha mesmo em trechos lamacentos ou difíceis.

Elimine os resíduos corretamente – Emabale todo o lixo, resto de comida e de qualquer outra coisa que não seja natural daquele ambiente e leve de volta com você. Nem pense em fazer cocô perto da água (60 metros de distância), faça um buraquinho cat hole de 15 a 20 cm e depois do serviço, tape de volta.

Deixe tudo como encontrou – Não traga lembrancinhas. Veja artefatos históricos e outras estruturas com os olhos e não com as mãos.

Minimize os impactos de fogueiras – Idealmente ultilize um fogãozinho a gás para cozinhar e lanternas para iluminar a área. Mantenha a fogueira pequena e só utilize galhos do chão e que possam ser quebrados com as mãos. Não esqueça de apagar a fogueira completamente e espalhar a cinzas frias.

Respeite a vida selvagem – Super básico. Mantenha distância e nunca nunca alimente-os. Utilize bear hangers ou outras estratégias para não atrair animais para a sua área de camping.

Seja discreto e não perturbe os outros visitantes – Divida a trilha, dê espaço não acampando muito próximo de outros visitantes e principalmente, deixe os sons da natureza prevalecerem.

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Para você que acha que isso que isso é extremismo, depois de olhar as minhas fotos me diz se você não gostaria de estar num ambiente desse, vazio de artificialidade e cheio de natureza. Não encontrei uma casca de fruta, um papel de menta. Tudo era natural, tudo era natureza. Sem rastros nenhum dos tantos outros que já passaram por ali. Rastros são distrações que nos fazem perder a visão do encanto. A beleza de visitar um lugar como esse está em não ver mais nada além, não pensar nada além, traduzo isso como comtemplação.

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De boa. Contemplo e me Completo.

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3, 2, 1 para preparando um jantar no mato.

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Dinner prep.
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Fogão portátil a espera da panela.
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Sem fogueira e protegendo o solo de resíduos.
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Isso foi para cima de um macarrão depois. Ah, fizemos 3 boas refeições lá!

3, 2, 1 para mulheres bonitas passando na sua tela.

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Mochileiras 🙂

Nosso passeio foi de apenas uma pernoite, mas, pensa numa mochilada no mato que rendeu muito. O que aprendemos? Já sei desde como arrumar a mochila, ajustar, carregar, fazer comida, armar o camping (talvez mais ou menos) até como escovar os dentes no mato com o mínimo de impacto possível. Já quer sair mochilando pelo mundo comigo? Comenta esse post que estou aceitando currículos (hahaha).

E o meu caso com o mato? É encantamento, fuga dos rastros e distrações.

Nota: Não, não me senti nenhum pouco insegura ou preocupada por estar mochilando com um grupo só de mulheres. Em um mundo ideal é assim que deveríamos nos sentir indo para qualquer lugar mas… [inserir textão revoltado aqui].

Bom final de semana povo!